O bispo Kevin Rhoades, da Diocese de Fort Wayne-South Bend, manifestou publicamente forte oposição à nomeação da professora Susan Ostermann como diretora do Instituto Liu para a Ásia e Estudos Asiáticos da Universidade Notre Dame. A controvérsia gira em torno da vocal defesa do aborto por Ostermann e suas declarações públicas ligando o movimento pró-vida à misoginia e supremacia branca. Dom Rhoades argumenta que essas posições contradizem fundamentalmente a identidade e missão católica da Notre Dame, podendo causar escândalo entre os fiéis. Diante disso, o bispo instou a administração universitária a reverter a nomeação, a menos que a professora retrate publicamente sua defesa controversa.
12 de fevereiro de 2026
Bispo manifesta “indignação” e pede reversão antes de julho
Em declaração datada de 11 de fevereiro, o bispo Kevin C. Rhoades expressou “consternação” e “forte oposição” à nomeação de Ostermann, prevista para vigorar a partir de 1º de julho de 2026.
Dom Rhoades argumentou que as posições da professora causam escândalo, contradizem a missão católica da Notre Dame e a desqualificam para um cargo de liderança na instituição. Citando a constituição apostólica Ex Corde Ecclesiae — documento basilar que rege as universidades católicas —, o bispo instou a universidade a rever a decisão antes da data prevista para a posse.
Professora defende aborto e associa pró-vida à supremacia branca
A controvérsia tomou proporções nacionais após a divulgação de artigos de opinião coassinados por Ostermann, nos quais ela nega que fetos sejam bebês e afirma que posições pró-vida têm raízes na supremacia branca, no racismo e na misoginia.
A professora também alega que o conceito católico de “desenvolvimento humano integral” seria compatível com a defesa do aborto — posição que contraria diretamente o ensinamento magisterial da Igreja. Além disso, ela atua como consultora do Population Council, organização internacionalmente vinculada à promoção do aborto. Em resposta à crise, Ostermann declarou respeitar a posição pró-vida da Notre Dame, mas afirmou manter convicções pessoais sobre o tema.
Professores renunciam e estudantes entram em ação
A nomeação desencadeou reações imediatas dentro da própria universidade. Dois professores do Instituto Liu — Robert Gimello e Diane Desierto — pediram demissão em protesto contra a decisão.
Estudantes do grupo Notre Dame Right to Life, incluindo uma jovem adotada da China, protocolaram pedido formal de reversão da nomeação, citando os impactos concretos dessas posições sobre vidas vulneráveis. A mobilização estudantil evidencia que a questão não é apenas teórica, mas toca diretamente a formação dos futuros líderes que passam pela instituição.
Bispos americanos se unem em apoio à posição de Rhoades
A pressão episcopal foi além dos limites da diocese de Fort Wayne-South Bend. O arcebispo Samuel Aquila, de Denver, afirmou que a nomeação “mancha” a identidade católica da Notre Dame.
O bispo Robert Barron, de Winona-Rochester, e o bispo Michael Olson, de Fort Worth, manifestaram solidariedade inequívoca à posição de Dom Rhoades, sinalizando que a preocupação com a ortodoxia na principal universidade católica dos Estados Unidos transcende fronteiras diocesanas.
Notre Dame mantém a nomeação apesar das críticas crescentes
Em meio à avalanche de críticas, a Universidade Notre Dame defendeu Ostermann como acadêmica qualificada e reafirmou que suas lideranças devem alinhar suas decisões com a missão católica da instituição. Até 8 de fevereiro, a universidade mantinha sua posição, sem indicativo de reversão.
Análise: Universidades católicas devem proteger a doutrina ao nomear lideranças
O mandato inescapável da identidade católica nas universidades
As universidades católicas carregam responsabilidade profunda de preservar sua identidade distintiva enraizada na fidelidade à doutrina da Igreja, particularmente ao nomear líderes como reitores, presidentes, chanceleres e docentes. Esse mandato decorre dos ensinamentos magisteriais, que enfatizam que o caráter católico de uma universidade não é opcional, mas essencial, exigindo compromisso institucional com a mensagem cristã, integridade doutrinária e supervisão pelas autoridades eclesiásticas. Ignorar esse imperativo arrisca diluir a missão da universidade de evangelizar a cultura e formar estudantes na fé e na razão.
A Ex Corde Ecclesiae deixa claro que toda universidade católica deve assegurar “de forma institucional uma presença cristã no mundo universitário”, caracterizada pela fidelidade à mensagem cristã como interpretada pela Igreja. Isso inclui “reflexão contínua à luz da fé católica sobre o crescente tesouro do conhecimento humano” e um “compromisso institucional com o serviço ao povo de Deus”. Sem isso, a universidade deixa de ser autenticamente católica, tornando-se indistinguível de instituições seculares.
Responsabilidades canônicas das autoridades eclesiásticas
A Igreja confia a bispos e chanceleres a supervisão vigilante para garantir fidelidade doutrinária, especialmente em nomeações. Na Sapientia Christiana, os deveres do chanceler incluem promover o progresso científico enquanto “assegura que a doutrina católica seja seguida integralmente” e propõe nomes para reitores, presidentes e professores que requeiram nihil obstat — permissão canônica para ensinar concedida ou revogada com base na fidelidade às normas da Igreja.
A Ex Corde Ecclesiae reforça que a responsabilidade pela identidade católica “recai primariamente sobre a própria universidade”, mas as autoridades institucionais devem recrutar pessoal “disposto e capaz de promover essa identidade”. Todos os professores e administradores devem ser informados desse dever ao serem nomeados, com professores católicos sendo fiéis à doutrina e os demais a respeitando. Notavelmente, professores não católicos não devem constituir maioria, para que o caráter católico não seja colocado em risco. Os bispos desempenham papel central, podendo conceder ou retirar o título “católico” de instituições que falhem nesse quesito, conforme afirmado na Veritatis Splendor.
Lições históricas da Notre Dame e de outras instituições
A Universidade Notre Dame exemplifica tanto os triunfos quanto as tensões de equilibrar missão católica com patriotismo americano. Seu lema pós-Primeira Guerra Mundial — “Deus, Pátria, Notre Dame” — refletia uma visão em que o neotomismo integrava fé e serviço nacional. Quando o Padre Theodore Hesburgh assumiu a presidência em 1952, vislumbrou a Notre Dame como “a maior universidade [católica] do mundo”, expandindo instalações e patrimônio enquanto priorizava a “excelência”.
Contudo, críticas como as de Michael J. Baxter defendem reordenar as prioridades colocando Deus em primeiro lugar, alertando que o liberalismo moderno e a política estatal privatizam o bem, incompatíveis com o florescimento humano aristotélico-tomista. Ainda em 1925, a indagação de George Shuster — “Temos algum estudioso católico?” — desafiou o ensino superior católico a transcender piedade e esportes em prol de genuína busca intelectual a serviço da cristandade. Essas reflexões destacam que nomear líderes que subordinam doutrina a agendas nacionais ou seculares arrisca a disseminação de “opiniões perversas”, como alerta a Aeterni Patris de Leão XIII.
Implicações práticas para nomeações e formação de lideranças
Salvaguardar a doutrina em nomeações de liderança significa mais do que poder de veto; envolve formação proativa. Os programas universitários devem combinar excelência acadêmica com “formação em princípios morais e religiosos e nos ensinamentos sociais da Igreja”, oferecendo cursos de doutrina católica a todos os estudantes. Capelães e bispos devem fomentar diálogo onde a fé renova a cultura.
O Papa São João Paulo II, ao se dirigir à Universidade Santo Tomás, chamou as universidades a educar líderes que sintetizem “fé e cultura”, priorizando “o ético sobre o técnico” e “o espírito sobre a matéria”. A Congregação para a Doutrina da Fé sublinha examinar escritos contrários à fé, com bispos assegurando unidade na profissão de mistérios como a Encarnação. Assim, líderes devem ser guardiões doutrinários, não meros administradores.
As universidades católicas devem nomear líderes comprometidos com a integridade doutrinária para cumprir sua missão insubstituível em meio aos desafios culturais. Seguindo as características da Ex Corde Ecclesiae e a supervisão canônica, servem ao encontro da Igreja com a modernidade, formando santos e estudiosos. Reordenar missões — Deus acima de tudo — garante que as universidades permaneçam faróis da verdade, como a história da Notre Dame insiste em lembrar.

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